Um desconhecido

Estávamos no intervalo de uma peça de teatro quando Carol quis ir até uma farmácia próxima. Eu distraído, quando reparei, estávamos em frente aos exames de gravidez. Levei um susto! Logo disparei – “Grávida?” – e ela com um sorriso lindo – “Acho que sim!”

Pronto, foi o suficiente para um desconhecido se apossar de mim.

Retornamos para o teatro na dúvida de, fazer já o exame ou aguardar para chegar em casa? Nessa foram 2 idas dela ao banheiro, intermináveis para mim. Na primeira ela desistiu por estar muita fila e o espetáculo estava por recomeçar, já na segunda, no comecinho da segunda parte Carol tomou coragem e foi… Eu fiquei. Na minha cabeça algumas idéias começaram a brotar, inclusive subir ao palco no final da apresentação e gritar p todos que eu iria ser pai, e que eles estavam compartilhando de um dos melhores momentos de minha vida! Ela voltou e não, ela não sabia se estava gravida, faltou coragem.

Em casa, nem titubeamos…fomos direto ao ponto e já apareceram 2 marquinhas azuis q não deixavam dúvidas. Tínhamos um bebê a caminho. Ficamos por quase 10 minutos sem conseguir nos falar direito pelo simples fato de, estarmos numa gargalhada sem fim. Momentos de silêncio e apenas uma confidência no olhar foram recorrentes, o medo, dúvidas e planos vieram depois.

Fomos feitos para amar. Eu acreditava nisso, e hoje creio mais ainda. Penso que ao longo da vida vamos trocando os “objetos” de nosso amor. E o amor de pai, é uma das coisas mais malucas que aconteceram comigo nos meus últimos 31 anos, rs, principalmente no período da gravidez, onde o objeto amado não existe, ou melhor, existe mas é invisível, não, é visível mas não posso vê-lo nem senti-lo, posso apenas…apenas amar. E é neste ponto que a maluquice acontece, pois o amor nasce por algo ainda embrião, algo ainda em formação que já transforma, te transforma. Pelo menos comigo foi assim, a minha maneira de ver o mundo, de perceber minhas relações com o outro e com as coisas, mudou.

Já não somos apenas dois, somos dois e uma barriga. E é engraçado pois começamos a nos relacionar com esta barriga, amar esta barriga e proteger, uma barriga, nosso filho se torna a barriga. Nunca amei tanto uma barriga. Depois de algum tempo o que era quase etéreo começa a se concretizar nos chutes e empurrões que vem de dentro, aí a loucura toma conta… A barriga começa a, praticamente, interagir com você e o amor por ela debanda de aumentar. Quando me vi falando com a barriga, foi um ponto alto da loucura, mas quando ela respondeu…foi o ponto máximo.

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Acredito que para as mães seja diferente, pois já desde o início além de sentirem o desconforto, já sentem o “serzinho” se movimentando, ganhando espaço embalado no seu ventre. Ele é mais presente na vida dela, mas para o pai não, confesso que por vezes esquecia que seria pai, por curtos períodos, mas aconteceu até pelo menos o quarto mês de gravidez. Mas o amor estava ali, sempre presente, um amor que, a essa altura, eu já julgava conhecer e dominar.

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19:01, Aimée nasceu! Bunitinha, toda enrrugadinha, cabeluda, branquinha de vernix, com a pele rosada, seu chorinho que demandava uma força extrema dela quase não chegava aos meus ouvidos, os médicos me parabenizando, eu querendo vê-la um pouco mais, vi, não reconheci. – “Aimée, quem é você? Eu ajudei a escolher seu nome mas, não te reconheço. Você está me reconhecendo? Bom, se somos pai e filha então, muito prazer, seja bem-vinda!”

É engraçado, parece que o amor que eu sentia era realmente pela barriga, e agora com essa pessoinha desconhecida, terei que rever aquele amor que eu já conhecia. Mas todos os pais e mães que eu conheci no caminho me disseram que o amor tomava conta, que seria de imediato. – “Estranho! Eu não estou sentindo nada relevante por ela…cadê aquele sentimento tão intenso que iria mudar minha vida? Estou achando ela lindinha, mas…estou quase me forçando a gostar mesmo dela. Vixe, será que sou muito “duro” para sentir essas coisas? Bom, vou pegá-la no colo, vai que…”

Comigo não aconteceu como previram para mim! Um sentimento desconhecido e um certo estranhamento eram mais presentes que o amor anunciado.

Ficamos eu e Carol com nossa Aimée toda embaladinha, e a família alvoroçada na janelinha até que levaram a gatinha.

O tempo que passei até ir para o quarto quase nem me lembro como foi, acho que tudo estava se reorganizando dentro de mim.

Por volta das 23:45 a Carol foi para o quarto, os dois numa conversa sobre o acontecido, mas cada um com sua reserva de falar do tal desconhecido.

Toc toc, e uma criaturinha entra pela porta toda de branco, cabelos…muitos, penteados e com um gemidinho sem igual – “Hum, acho que comecei a reconhecer esse sentimento…” – depois de algumas instruções da enfermeira ficamos a admirar nossa filha, NOSSA FILHA!

O tal desconhecido, sorrateiramente, a cada movimento ou som produzido pela pequena, ia se aconchegando mais em mim, tomando conta de tal forma que dormir parecia ser tempo demais “longe” dela.

É muito maluco mesmo, um turbilhão de pensamentos e uma avalanche de sentimentos tomam conta. Eu ainda tocava e olhava para minha filha sem intimidade alguma, mas ela já solicitava minha atenção e dedicação sem titubear, da mãe dela então…

Com os dias fomos nos conhecendo, na verdade eu, porque ela parecia já me conhecer a muito tempo, desde a barriga…a barriga! O tal desconhecido, aquele lá da farmácia é o mesmo de hoje, que agora conheço e reconheço, é o amor de pais.

Um amor que mesmo sem ver, sem poder tocar ou falar, e por mais “estranho” que um filho possa se apresentar para ele, sorrateiramente cresce!

Ah e depois, por ter coragem de confidenciar isso para alguns pais mais experientes fui saber que, aquele sentimento de estranhamento com o bebê ao nascer, é mais que normal. Quase todos os pais e mães sentem, mesmo que por alguns segundos, eles apenas não falam, não sei porque. Somo seres humanos, sentimos de tudo!

Sinta sem medo e sigamos felizes!

Como foi sua experiência? Conte nos comentários, queremos saber.

9 Comments

  1. Isabela Koga

    Que bom saber que eu e meu marido não fomos os únicos a ficar tipo: Oi? Era você que estava na barriga da mamãe? Era você que dava aqueles chutinhos? Era com você que nós ficávamos horas conversando?
    Hoje Davi está com 27 dias, e a cada manhã meu amor se renova, aumenta..
    Tudo passa a ser por eles, para eles..
    Estamos tentando nos adaptar a essa nova rotina, que é muito cansativa, mas que com um olhar, uma risadinha dormindo, um barulhinho diferente, faz tudo valer a pena!!!

  2. Maria Ines de C. Delorme

    Acho que vcs gostariam muito de ler o livro ” Pai Presente”, delicado e profundo, escrito por Jose Inacio Parente.
    Em breve lançaremos um novo livro na area, e acho que vc vão gostar muito.
    Um abraço. Boa iniciativa. Maria Ines de C. Delorme

  3. Olá, minha gravidez foi planejada, esperavamos pela Heloise a mais ou menos uns três anos e então a confirmação de uma gravidez veio, ja a amava no momento do positivo, mas era estranho e ao mesmo tempo maravilhoso saber que tinha um ser, uma vida crescendo dentro de mim, muitas vezes segurava a barriga e agradecia a Deus pela dádiva, muitas outras vezes tive medo, medo do desconhecido- conhecido, na quarta de carnaval, já madrugada Heloise decide vir ao mundo com apenas 38 semanas, Helo nasceu dia 5 de março deste ano, confesso que no primeiro momento não senti aquele amor que muitas mães afirmam sentir, foi estranho ver aquele ser pequenino chorando, que tinha saido de dentro de mim e que por sinal estava faminta, mas os dias foram passando e meu coração reconhecendo a minha pequena, a cada choro, olhada,respirada, eu não conseguia desgrudar o olho dela, ja à amava muito.
    As noites estão cada vez mais longas, o cansaço é imenso e o sono grande, mas quando eu olho no rostinho dela e ela esta me olhando e agora com seus quase três meses de vida sorri para mim, todo o cansaço e as noites mau dormidas são esquecidas e cada noite e toda noite revividas, me mostrando que cada dia com ela vale a pena

  4. Albert Melo

    De forma semelhante eu já me familiarizei com meu filho desde a barriga, chamando e colocando musicas pra ele escutar. Mas quando eu o vi pela primeira vez, foi impossível não o reconhecer, tamanha semelhança com a mãe. As sobrancelhinhas franzidas com expressão de chateado, como quem diz “por que você fez isso, cara?” rsrsrs.

    Algumas semanas depois já parecia que ele sempre esteve em nossas vidas, que ele sempre foi meu melhor amigo, e eu sinto muito a falta dele e da mãe quando passo a semana longe pra estudar e trabalhar. Mal posso esperar pra estar ensinando pra ele tudo que sei.

  5. Fernanda

    Nossa, Elam! É exatamente isso.
    Falei isso depois que minha filha nasceu.
    Eu achava que, olhando pra ela, já cairia de amores, como todos sempre me disseram. Mas não. E olha que eu sou mãe, ela viveu 9 meses dentro de mim. E como eu não estou amando a minha filha??? Tenho problema? Depressão pós parto??? Sou insensível (sendo que sempre chorei em assistir a filmes água com açucar…)??? Muito estranho.
    E culpa. Me senti culpada. Tava tudo errado. E a vergonha de falar, de admitir isso pra alguém? Compartilhar o que eu tava sentindo? E o medo do que os outros iriam pensar, como iriam me julgar??? Eu seria apontada como a pior mãe do mundo. Fato.
    Só consegui falar sobre o que senti naquele comecinho de vida dela depois que se passaram alguns bons meses.
    E consegui falar porque percebi exatamente o que havia acontecido comigo: A princípio, não existia amor por aquele serzinho. Existia preocupação, cuidado. Via o quanto minha filha era frágil e precisava de mim. E só de mim. Só eu, meio desajeitada, poderia ajudá-la. Só eu poderia acalmá-la em meio a sua crises de choro (e por que sofria tanto??? era muita agonia!!!). E em meio a tanto cuidado, em perceber sua fragilidade e querer protegê-la… os dias foram passando e o AMOR veio dominando. Cada dia mais. Um amor que desabrochou dias após ela nascer. Que foi crescendo de acordo com todo meu empenho em fazer ela se acalmar, em amamentar (melhor coisa da vida!!!), em me doar 150%, 30 horas por dia, todos os dias, só por ela, para ouvir cada respiração… e garantir: a minha pituquinha estava bem.
    Um amor que nasceu da preocupação, do cuidado e da doação.
    Foi assim que me entendi, depois que tudo passou.
    E agora é amor sem fim. Agora meu coração bate fora do peito. 🙂
    Bjos, família! Post lindo!!!

    • Elam Lima

      Fernanda, que delícia ler o seu comentário!
      Quando escrevemos ficamos um pouco perdidos sem saber se é um sentimento só nosso ou semelhante ao de outros pais, e com seu comentário tivemos a certeza de conseguir “falar a mesma língua” e até ajudar a passar, e entender, esses momentos tão novos p/ nós.
      Me emocionei lendo e mais ainda qdo vi que chamamos nossas princesas pelo mesmo apelido, pituquinha, entre outros, claro…rs.
      Obrigado por compartilhar conosco sua história, nos fez muito bem.
      Bjos p sua família, siga feliz!

  6. catarina tissot

    Nooossa! Achei que somente eu me senti estranha com a chegada do meu principe….
    …Meu parto estava marcado para 28.08.13,porem uma semana antes tive pressao alta e talvez teria q antecipar…idas e vindas da maternidade decidimos aguardar ate a data…. Pronto a tal quarta feita chegou e o nervoso tambem,eu ainda nao tinha dado conta de que agora so viria pra casa acompanhada…sai as 6 da manha rumo ao hospital,tudo otimo… 11:09 nasceu Gustavo… achei que me sentiria a pessoa mais realizada… mas n foi assim, tive total estranhamento qndo vi ele a 1 vez…confesso q tive medo do q senti… qndo fomos pro quarto a sensacao so piorou… no parto tudo otimo,sem dor sem coceira,enfim sem nada… so uma sensacao de ‘acabada’ eu tava me sentindo inutil e ao mesmo tempo sobrecarregada pois agora tinha uma vida dependendo d mim.. fomos pra casa, mesmo me sentindo angustiada e sem sentir nada pelo bebe tive q me conter e n falei pra ninguem, os dias foram passando e fomos nos conhecendo.. agora sim consigo sentir o amor de mae q tanto me falavam… eu n durmia olhando pra ele… o sentiment aflorou por akele ser tao pequeno e desde entao somos grudados, ele nao me larga e eu n largo ele… me sinto muito feliz.. ele e meu companheiro,meu anjo e minha luz.. hj ja nao me imagino sem ele… minha historia e longa,mas resumi…
    Enfim.. nao se culpem por n amar num primeiro momento .. no segundo o amor vem com tudo e quase transborda…
    PARABENS PELO EXEMPLO DE CASAL E POR ESSA JOIA LINDA E RARA… A PARTIR DE AGORA OS PENSAMENTOS SERAO SOMENTE NELA.. aproveitem eles crescem muito rapido!
    Um bjao e felicidades

    • Elam Lima

      Poxa Catarina que linda sua história, me emocionei e me arrepiou saber q saiu ainda com esse sentimento do hospital. Conosco foi um pouco mais breve e já foi um sentimento estranho, imagino p vc.
      Desculpe a demora em responder mas, como deve saber, nosso tempo ficou curto p escrever e postar, agora é que estamos conseguindo organizar melhor.
      Obrigado por compartilhar seu momento conosco, espero que agora estejam melhores ainda e que tenham uma vida longa de trocas e aprendizados, é uma maravilha não é mesmo?
      Até breve e siga feliz!

  7. Elam Lima

    Realmente Rebeca é um momento muito especial, estranho ao mesmo tempo, e mesmo assim um dos melhores da minha vida!
    Obrigado por compartilhar seu momento conosco. Espero que estejam se entendendo bem.
    Até breve!

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